quinta-feira, 10 de junho de 2010

Seja bem-vinda Copa do Mundo...



Épico, histórico, incrível, lindo, inesquecível. Esses adjetivos, e muitos outros, usaremos para falar do 11 de junho de 2010. Quando as primeiras palavras em xhosa do hino sul-africano (Nkosi Si'kelele iafrica...) ecoarem no Estádio Soccer City, pouco depois das 11h desta sexta-feira, o esporte estará celebrando uma pequena vitória do experimento humano. Esse bicho estranho, que aqui na África se ergueu sobre duas patas há milhares de anos - e tantas vezes caiu, semeou miséria, plantou destruição. E tantas vezes se levantou, como se sua vocação para redenção fosse elástica - e invencível.

Quando Nelson Mandela entrar no estádio, diante dos olhares marejados e eufóricos de 94 mil pessoas de todas as etnias e tantos idiomas, para abrir a Copa do Mundo – o primeiro jogo já estará ganho. Quando ouvirmos os gritos de “Madiba”, o carinhoso apelido de Mandela, a taça moral já estará na casa dos sul-africanos. O que viveremos depois será… bom, será a continuação do filme. Ou de muitos filmes.

Foi no Soccer City que Mandela fez seu primeiro discurso após deixar a prisão em 1990. Foi ali também que se realizou o funeral de Chris Hani, líder negro assassinado em 1993. Um crime que, não fosse por Mandela, poderia ter gerado uma guerra civil no país. Foi num 11 de junho que Mandela foi condenado à prisão em que passou 27 anos. Quanta história, ou quantas histórias, não trará Madiba nos ombros – e quantas vidas salvas não estarão presentes em seu amplo sorriso? O mais pessimista dos céticos haverá de sentir um arrepio, o mais distante dos cínicos não ficará imune. A Copa que começa no Soccer City, esse majestoso vaso de barro calabash em forma de estádio, não é apenas mais uma Copa.

Um jogo, sim, haverá um jogo – entre África do Sul e México – e sob o ensurdecedor ruído das vuvuzelas. Será o pontapé inicial de mais uma festa do futebol – sob olhares do mundo inteiro..

Mas essa Copa é mais que esportiva, disputada num país como nenhum outro. Sua realização aqui, menos de 20 anos depois do fim do apartheid, é um gol humanamente planetário.

Um gol que sublima politicagens, cartolas e superfaturamentos. Um gol que une brancos, negros e coloridos. Em nenhum lugar, o racismo foi tão abjeto – e em nenhum lugar uma mudança radical foi tão pacífica. Aqui, a revolução reuniu seus filhos em vez de devorá-los. Sim, muitas feridas do apartheid ainda estão abertas. A África do Sul segue um país desigual, violento e repleto de problemas. A pobreza continua tendo cor. O rancor não desapareceu. Os brancos continuam vivendo em bairros melhores. Mas, bom, fazem apenas 20 anos.

Mandela mesmo disse - após escalar uma montanha, descobrimos que existem muitas outras. A 19ª Copa passará, como todas passam. Mas nas ruas de Joanesburgo, de Durban, da Cidade do Cabo, em Soweto ou em outras antigas cidades-dormitório, a eletricidade é evidente. A alegria e o orgulho são evidentes. A etiqueta da vergonha deixou o passaporte sul-africano. Em duas décadas, a África do Sul reescreveu sua história – e hoje, vestidos de verde e amarelo – os sul-africanos vislumbram ouro no fim do arco-íris racial.

Começamos a viver futebol, respirar futebol, almoçar futebol – nós, brasileiros, mas não apenas. A festa da bola paralisa países, cria modas, promove celebridades instantâneas. Hoje, porém, antes do frenesi, da alegria, da tensão esportiva que gera heróis súbitos e vilões inapeláveis, o mundo vai parar, aplaudir e celebrar um negro de 1,83m, com seus cabelos brancos e 91 anos. Quando Nelson Rolihahla Mandela entrar em cena, talvez seja pela última vez.

No continente em que deixamos as cavernas, berço da humanidade, estaremos emocionados por Mandela - pois sabemos que, no fundo, ele representa o que há de melhor no gênero humano. Talvez estejamos vendo sua derradeira aparição pública - ou penúltima porque ele disse que vai voltar para a final. Abrir a Copa do Mundo será mais um típico momento Mandela - um pequeno gesto com enorme significado. Como quem escreve o epílogo de sua obra, Mandela repetirá duas palavrinhas em soto: Ke Nako. Chegou a hora. Chegou a hora da África.

Fonte: Globoesporte.com

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